Reformado, mas não calvinista
- Filosofia Cristi
- 23 de mai.
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I. INTRODUÇÃO
Desde que comecei a estudar teologia, deparei-me com diversas questões, entre elas o embate entre reformados e pentecostais. No início, aos 18 anos, tornei-me calvinista e me considerava um cristão reformado. Contudo, com o passar do tempo, à medida que me aprofundava na leitura das Escrituras e no estudo da teologia e da filosofia, percebi que o calvinismo era incompatível com o meu sistema de crenças, isto é, com aquilo que eu entendia como biblicamente, teologicamente e filosoficamente correto.
Diante disso, abandonei o calvinismo e passei a considerar o molinismo como a melhor teoria da providência divina. Nesse processo, rejeitei dois dos cinco pontos do calvinismo — a expiação limitada e a graça irresistível — embora, atualmente, eu rejeite apenas a graça irresistível. Em virtude dessa mudança, deixei de me identificar como reformado. No entanto, também nunca me considerei pentecostal. Surgia, então, a pergunta: afinal, onde me situo?
Em um dia, na universidade, durante uma conversa com meu amigo Daniel Mota, um presbiteriano, percebi que, de certo modo, eu ainda era reformado. O que eu rejeitava não era propriamente o termo “reformado”, mas a sua identificação automática com “calvinista”. Desde então, passei a me considerar um reformado não calvinista — e é isso que pretendo explicar, já que muitos podem se encontrar na mesma situação em que eu me encontrei.
II. CALVINISMO = REFORMADO? NÃO!
Já vi e ouvi, em muitas ocasiões, pessoas tratando o calvinismo como sinônimo de ser reformado, e vice-versa. Contudo, penso que essa identificação é mais convencional do que historicamente precisa. Nenhum cristão reformado dos séculos XVI e XVII entendia João Calvino como o único definidor de toda a tradição reformada. Na verdade, Calvino era visto como uma figura importante entre várias outras, como Ulrico Zuínglio, Martin Bucer, Heinrich Bullinger e Pietro Martire Vermigli. Isso significa que o pensamento de Calvino, por si só, não é suficiente para definir o que significa ser reformado.
III. TULIP = REFORMADO? NÃO!
Já vi e ouvi, em muitas ocasiões, pessoas tratando a TULIP — isto é, a soteriologia calvinista — como sinônimo de ser reformado, e vice-versa. Contudo, penso que essa identificação é mais convencional do que historicamente precisa. A TULIP (sigla em inglês), ou os “cinco pontos do calvinismo”, é um resumo das decisões do Sínodo de Dort e representa os seguintes conceitos: depravação total, eleição incondicional, expiação limitada, graça irresistível e perseverança dos santos. Mas isso é suficiente para definir o que significa ser reformado? Penso que não.
Primeiramente, o Sínodo de Dort não foi uma tentativa de definir, em sua totalidade, a tradição reformada. Seu objetivo principal era resolver a controvérsia remonstrante dentro de uma tradição reformada que já existia anteriormente. Podemos entender isso por meio de uma analogia. Em 2018, a FIFA adotou oficialmente o sistema VAR durante a Copa do Mundo de 2018 como forma de reduzir erros graves de arbitragem. O VAR solucionou um aspecto específico do futebol, mas não definiu o esporte em sua totalidade. O futebol não pode ser reduzido ao uso do VAR, porque há muito mais elementos que constituem o jogo.
Algo semelhante ocorre na relação entre Dort e a tradição reformada. O sínodo não pretendia definir exaustivamente o que é ser reformado; ele buscou responder a um problema específico dentro da tradição reformada. Portanto, a TULIP, por si só, não é suficiente para definir a identidade reformada.
IV. CRISTIANISMO REFORMADO
O que é, então, ser reformado? É importante notar que, historicamente, o conceito de “reformado” surgiu principalmente em oposição ao luteranismo, sobretudo em questões relacionadas à natureza da Ceia do Senhor, e não primariamente em torno da predestinação.
Além disso, a tradição reformada abrangia diversas comunidades geográficas, incluindo França, Escócia, Inglaterra, Renânia, Países Baixos e outras regiões da Europa. Cada uma dessas comunidades desenvolveu suas próprias confissões de fé e expressões teológicas. Assim, o pensamento reformado passou a ser caracterizado por uma pluralidade de documentos confessionais, como a Confissão Gálica, a Confissão Escocesa, a Confissão Belga, os Trinta e Nove Artigos, o Catecismo de Heidelberg, a Segunda Confissão Helvética, os Cânones de Dort, a Confissão de Fé de Westminster, a Declaração de Savoy e a Confissão de Fé Batista de Londres de 1689.
Desse modo, historicamente, ser reformado significa, em grande medida, identificar-se e subscrever uma ou mais dessas confissões. Isso deixa claro que ser reformado não se reduz simplesmente a ser “calvinista”, nem apenas a afirmar a predestinação.
Os membros da tradição reformada sempre divergiram entre si em diferentes questões teológicas e filosóficas. No meu caso, assim como Alvin Plantinga e Del Ratzsch, discordo da compreensão de providência divina proposta pelo calvinismo.
Existe ainda uma observação que precisamos fazer sobre aqueles que subscrevem as confissões supracitadas. As confissões não são documentos inspirados; no entanto, muitos tratam essas confissões como se fossem seu “Papa”. A Confissão de Fé de Westminster, ao que parece, possui mais autoridade, em certas comunidades reformadas, do que o trabalho de um teólogo específico. Na prática, o trabalho deste último deve ser subordinado à confissão de fé. Isso me parece um absurdo. Devemos ter coragem de discordar de uma passagem da confissão quando percebermos que ela não descreve adequadamente a verdade bíblica. Não devemos nos vincular de forma tão forte a um documento não inspirado, criado por homens. Isso nos leva ao próximo ponto.
V. MONERGISMO
A maioria esmagadora dos teólogos reformados afirmam que o conceito de monergismo é fundamental. Concordo com isso. A palavra “monergismo” deriva dos termos gregos mónos (μόνος), que significa “único” ou “sozinho”, e érgon (ἔργον), que significa “obra”, “trabalho” ou “ação”. Em resumo, o termo significa “obra de um só”. Em contexto teológico, isso quer dizer que o único agente eficaz na salvação do ser humano é Deus. A Confissão de Fé de Westminster[1] expressa essa ideia da seguinte forma:
III. O homem, ao cair no estado de pecado, perdeu inteiramente todo o poder de vontade quanto a qualquer bem espiritual que acompanhe a salvação; de sorte que um homem natural, inteiramente avesso a esse bem e morto no pecado, é incapaz de, pelo seu próprio poder, converter-se ou mesmo preparar-se para isso. (Capítulo IX, parágrafo 3)
No entanto, a maioria pensa que o monergismo implica o “I” da TULIP, isto é, a graça irresistível. Discordo disso. Molinistas reformados normalmente rejeitam a doutrina da graça irresistível. Kenneth Keathley, um molinista reformado, resume esse ponto com o seguinte exemplo:
Imagine acordar e descobrir que está sendo transportado por uma ambulância para a sala de emergência. É claramente evidente que sua condição requer ajuda médica séria. Se você não fizer nada, será levado ao hospital. Contudo, se, por qualquer razão, exigir ser retirado da ambulância, o motorista atenderá ao seu pedido. Ele pode expressar pesar e fazer advertências, mas ainda assim permitirá que você vá embora. Você não recebe crédito algum por ter sido levado ao hospital, mas incorre em culpa por recusar os serviços da ambulância.
Nessa ilustração, você não faz nada para chegar ao hospital. A única coisa que possui capacidade de fazer é resistir. Qualquer “contribuição” feita por você é prejudicial. Agora, deixe a ambulância servir como metáfora para a obra do Espírito na conversão. Se você crê, é porque (e somente porque) o Espírito Santo o conduziu à fé. Se você não crê, é apenas porque resistiu. A única coisa que você é capaz de “fazer” é algo negativo. Assim, o modelo ambulatório sustenta uma obra monergística da graça que, ao mesmo tempo, deixa espaço para que o pecador recuse aceitá-la.[2]
Nessa passagem, Kenneth Keathley deixa claro como um molinista pode rejeitar a graça irresistível e, ainda assim, permanecer monergista. Além disso, penso que temos bons motivos para rejeitar a graça irresistível. Permita-me citar brevemente o “Argumento Omni” contra a graça irresistível, formulado por Timothy Stratton[3]:
Se a graça irresistível (o “I” do TULIP) é verdadeira, então, para qualquer pessoa x, se Deus deseja, tem o poder e sabe como fazer com que x vá para o Céu e não sofra eternamente no Inferno, então x irá para o Céu e não sofrerá eternamente no Inferno.
Se Deus é onibenevolente, onipotente e onisciente, então, para qualquer pessoa x, Deus deseja, tem o poder e sabe como fazer com que x vá para o Céu e não sofra eternamente no Inferno.
Existe pelo menos uma pessoa que não irá para o Céu e sofre eternamente no Inferno.
Portanto, não se pode afirmar simultaneamente (i) que a graça irresistível é verdadeira e (ii) que Deus é onibenevolente, onipotente e onisciente (um ser maximamente grande).
Deus é um ser maximamente grande.
Portanto, a graça irresistível (o “I” do TULIP) é falsa.
Portanto, o determinismo divino é falso (Deus não determina causalmente todas as coisas).
Deus é completamente soberano e de fato predestina todas as coisas (Romanos 8:29–30; Efésios 1:5,11).
Portanto, predestinação e determinismo não devem ser confundidos.
Não irei desenvolver uma análise completa desse argumento em virtude do espaço, pois isso exigiria uma discussão mais extensa. Contudo, o argumento é suficientemente inteligível para qualquer pessoa que o leia com atenção.
VI. DEUS É SOBERANO SOBRE TODAS AS COISAS
Todos os teólogos reformados afirmam que o conceito de Soberania Divina completa e exaustiva é fundamental. Concordo com isso. A Confissão de Fé de Westminster declara:
I. Desde toda a eternidade e pelo mui sábio e santo conselho de sua própria vontade, Deus ordenou livre e inalteravelmente tudo quanto acontece, porém de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou a contingência das causas secundárias, em vez disso, é estabelecida.
Fantástico! É exatamente isso que o molinista acredita. Além disso, o Catecismo de Heidelberg[4], na Pergunta 27 — “O que você entende por providência de Deus?” — declara:
R. A providência de Deus é o Seu onipotente e onipresente poder, por meio do qual, com as Suas mãos, Ele sustenta continuamente o céu e a terra e todas as criaturas, governando-os de tal modo que ervas e plantas, chuva e seca, abundância e escassez, comida e bebida, saúde e doença, riqueza e pobreza, todas as coisas na verdade, não nos vêm por acaso mas procedem da Sua mão paternal.
Essa afirmação está corretíssima. Para os molinistas, Deus é soberano sobre toda a criação. Consideramos que Deus exerce soberania desde o movimento de uma partícula até os planetas e as ações humanas. Deus orquestra toda a realidade para cumprir Sua vontade suprema. Não irei repetir, mais uma vez, o modo como os molinistas compreendem isso; para tanto, veja o vídeo publicado no nosso canal do YouTube Filosofia Cristi, “Explicando o Molinismo de uma vez por todas”.
Em segundo lugar, em virtude de Deus saber o que Suas criaturas fariam em qualquer circunstância possível, Ele coloca os seres humanos em situações nas quais realizam livremente escolhas que, ao final, cumprem Sua vontade. É isso que significa predestinar todos os eventos. Dessa forma, Deus pode transformar o mal em bem, como ocorreu na história de José, em Gênesis 50:20.
Em terceiro lugar, o molinista crê na eleição pessoal presente em Efésios 1:4, Romanos 9 e João 6, bem como na eleição incondicional, uma vez que, sem a ação de Deus, todos os seres humanos livremente rejeitariam a Deus. Assim, Deus pode utilizar Seu conhecimento médio para realizar uma eleição pessoal, incondicional e não arbitrária.
CONCLUSÃO
Vimos, ao longo deste post, o que significa ser reformado, e um molinista, como eu, está plenamente habilitado a se declarar reformado. Ele pode rejeitar o calvinismo clássico e, como eu e outros fazem, rejeitar a graça irresistível, mantendo ainda assim um pensamento bíblico, teológico e filosoficamente coerente.
O molinista está comprometido com diversas afirmações centrais da tradição reformada. Duas que mencionei foram o monergismo e a soberania completa de Deus. Além disso, ele pode aceitar os credos históricos e grande parte das confissões de fé reformadas. No entanto, argumentei que confissões de fé são documentos humanos e, portanto, podem conter erros em alguns pontos. Assim, o molinista está mais comprometido com a verdade bíblica do que com a mera confessionalidade.
Sei que muitos não gostarão deste post, mas essa é a vida do filósofo e do teólogo: afirmar a verdade nua e crua. Às vezes, a verdade nos impede de contar uma boa história. Ainda assim, devemos afirmá-la, mesmo quando isso desagrada algumas pessoas.
NOTAS
[1] Citações retiradas de: A confissão de fé de Westminster. São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2001.
[2] Veja: KEATHLEY, Kenneth. Salvation and sovereignty: A Molinist approach. Nashville, TN: B&H Publishing Group, 2010. Cap. 4, “Is for Overcoming Grace”, seção “An Ambulatory Model of Overcoming Grace”.
[3] Veja: STRATTON, Timothy A. Human freedom, divine knowledge, and mere molinism: A biblical, historical, theological, and philosophical analysis. Eugene, OR, USA: Wipf & Stock, 2020.
[4] Citações retiradas de: As Três Formas de Unidade das Igrejas Reformadas. [s.l.] Clire, 2013.
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