A presciência divina elimina o livre-arbítrio? Uma análise crítica de um argumento popular
- Victor José

- 17 de mar.
- 4 min de leitura
Muitos pensam que, se Deus for onisciente, os seres humanos não podem ser livres. A razão é que a ideia de um Deus onisciente implica que Ele sabe tudo o que ocorreu, ocorre e ocorrerá. Deus conhece o futuro tão bem quanto conhece o passado e o presente. Por exemplo, suponha que Deus saiba que “Victor comerá feijão amanhã”. Se Deus já sabe antecipadamente o que Victor fará, então parece que Victor tem de comer feijão amanhã. Se ele tem de comer, então não é possível que deixe de comer. E, se não é possível que deixe de comer, então Victor não seria livre com respeito a essa ação. Assim, o argumento pode ser apresentado da seguinte forma: se Deus sabe antecipadamente que Victor executará determinada ação A amanhã, então Victor não é livre em relação a essa ação. E o problema não se limita a uma única ação. Se Deus conhece previamente todas as ações de todos os indivíduos, então pareceria seguir-se que ninguém é livre em relação a nenhuma de suas ações.
Esse argumento, frequentemente popularizado pelo público leigo — e, por vezes, apresentado de forma imprecisa por alguns filósofos — pode parecer convincente à primeira vista. No entanto, trata-se de um argumento fraco. Alguns pensadores, como William Lane Craig (2016, p. 69–71) e Alvin Plantinga (2012, p. 87–88), expuseram claramente as fragilidades desse tipo inicial de raciocínio.
O argumento pode ser analisado da seguinte forma. Suponha as premissas que estão subjacentes ao raciocínio:
(1) Se Deus sabe antecipadamente que S fará A, então S terá de fazer A.
(2) Se S terá de fazer A, então S não é livre para abster-se de fazer A.
Aplicando um silogismo hipotético às premissas (1) e (2), concluímos:
(3) Se Deus sabe antecipadamente que S fará A, então S não é livre para abster-se de fazer A.
Mas por que deveríamos aceitar a premissa (1)? Um defensor do argumento poderia tentar justificá-la da seguinte maneira: se Deus sabe que S fará A, então segue-se logicamente que S fará A. Em outras palavras, seria necessário que, se Deus sabe que a proposição p é verdadeira, então p é verdadeira.
No entanto, ao examinarmos essa afirmação com mais cuidado, percebemos que ela é ambígua e pode ser interpretada de dois modos distintos:
(1*) Necessariamente, se Deus sabe antecipadamente que S fará A, então S de fato fará A. Formalmente: ☐(A → B)
ou
(1**) Se Deus sabe antecipadamente que S fará A, então é necessário que S faça A. Formalmente: (A → ☐B)
O argumento apresentado exige a premissa (1**), mas a sua defesa fornece suporte apenas para (1*). Para compreender isso, considere uma tese amplamente aceita na epistemologia contemporânea. Desde a publicação do famoso artigo de Edmund Gettier, Conhecimento é crença verdadeira justificada?, tornou-se comum discutir o conhecimento a partir da chamada análise tradicional do conhecimento. Segundo essa análise, (a) S sabe que p se e somente se:
(i) S crê que p;
(ii) p é verdadeira;
(iii) S possui justificação ou evidência adequada para p.
O ponto central do argumento de Gettier foi mostrar que essas três condições talvez não sejam suficientes para o conhecimento. No entanto, independentemente de a análise tradicional ser ou não adequada, há um consenso praticamente unânime entre os filósofos de que pelo menos duas dessas condições são necessárias para o conhecimento: a crença e a verdade. Assim, se um sujeito sabe que p, então necessariamente p é verdadeira. Em termos modais, isso significa que é necessariamente verdadeiro que, se Deus — ou qualquer outro indivíduo — sabe que uma proposição p é verdadeira, então p é verdadeira.
A partir disso, podemos concluir que do fato de Deus saber que p não se segue que p seja necessariamente verdadeira. Por exemplo, se eu sei que “João é solteiro”, segue-se que é verdadeiro que “João é solteiro”. Contudo, disso não se segue que seja necessariamente verdadeiro que João seja solteiro. Pensar de outro modo seria cometer uma falácia clássica da tradição medieval: confundir a necessidade da consequência com a necessidade do consequente, como observa Richard A. Muller (2019, p. 130) em Vontade Divina e Escolha Humana. Em termos simples, trata-se da seguinte confusão lógica: a inferência de B a partir das premissas ☐(A → B) e A é necessária conforme o Modus Ponens. Contudo, não se segue daí que ☐B. Concluir que B é necessário seria falacioso, pois tal passo não é permitido pelas regras de inferência. Assim, se eu sei que João é solteiro, o que se segue é apenas que a proposição “João é casado” é falsa. Mas não se segue que ela seja necessariamente falsa.
Portanto, essa primeira formulação da suposta incompatibilidade entre presciência divina e liberdade humana parece ser um argumento fracassado, pois se baseia justamente nessa confusão modal.
Referências
CRAIG, William Lane. O único Deus sábio: a compatibilidade entre a presciência divina e a liberdade humana. Maceió: Sal Cultural, 2016.
MULLER, Richard A. Vontade divina e escolha humana: liberdade, contingência e necessidade no pensamento reformado do início da Idade Moderna. São Paulo: Vida Nova, 2019.
PLANTINGA, Alvin. Deus, a liberdade e o mal. Tradução de Desidério Murcho. São Paulo: Vida Nova, 2012.



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