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Se Deus decreta o mundo, ainda somos culpados?

Problema levantado por um amigo:

Se Deus atua diretamente em cada ação humana que, por essência, é pecaminosa, eu estaria implicando que Deus é responsável pelo pecado e, consequentemente, que Deus não é Santo, o que é uma heresia completa. Estou certo nesse pensamento?


Agora em relação ao molinismo...


Se Deus soberanamente decreta um mundo em que eu peco, nem que seja uma vez, e, portanto, me torno um ser pecador, Deus ainda assim não mal? Porque penso isso:Se Deus decreta um mundo X, eu claramente não tenho escolha acerca de como esse mundo X foi decretado. Portanto, eu não tenho escolha quanto ao pecado decorrente desse mundo X que Que foi decretado por Deus.


Lembro que você falou sobre o mundo ser a causa secundária do meu pecado e que eu, ao agir livremente, seria a causa primária. Mas ainda assim me parece muito estranha essa ideia de eu não ter escolha sobre o mundo que Deus criou e ainda sim ser culpado do pecado.


Obs: é claro que eu creio que somos de fato culpados de nossos pecados, mas ainda tenho dificuldade quanto a compreensão de como isso funciona.


Você levantou questões interessantes e extremamente importantes. No entanto, é necessário esclarecer alguns pontos, pois há uma certa confusão, em alguns momentos, entre Molinismo e Calvinismo. Vamos por partes. Ao longo da explicação, indicarei algumas referências que você poderá posteriormente consultar. Para organizar melhor, colocarei suas falas em itálico e, em seguida, apresentarei minha análise em texto normal.


Primeira questão


Você: Se Deus atua diretamente em cada ação humana que, por essência, é pecaminosa, eu estaria implicando que Deus é responsável pelo pecado e, consequentemente, que Deus não é Santo, o que é uma heresia completa. Estou certo nesse pensamento?


Análise: Penso que você está correto. Essa perspectiva, segundo a qual Deus atua causalmente nas ações humanas, seja diretamente, seja por meio de causas secundárias, está alinhada com a teologia calvinista. Nessa concepção, Deus determina suas escolhas e as faz praticar o mal.


Se é mau fazer outra pessoa agir mal, então, nessa concepção, Deus não é apenas a causa do pecado e do mal, mas torna-se Ele próprio mau — o que é absurdo. Pelo mesmo motivo, toda responsabilidade humana pelo pecado é eliminada. Pois nossas escolhas não dependem realmente de nós: Deus as causa. Não podemos ser responsáveis por nossas ações, porque nada do que pensamos ou fazemos depende de nós.


Esse problema surge, em grande parte, a partir da doutrina da concorrência divina na tradição calvinista. Segundo essa noção, Deus coopera com as causas secundárias na produção de todos os efeitos. Assim, Deus seria a causa primária de tudo o que acontece. Por exemplo, o fogo não queimaria se Deus não concorresse com a sua ação para que ele produzisse seu efeito.


Segunda questão


Você: Agora em relação ao molinismo...Se Deus soberanamente decreta um mundo em que eu peco, nem que seja uma vez, e, portanto, me torno um ser pecador, Deus ainda assim não mal?Porque penso isso:Se Deus decreta um mundo X, eu claramente não tenho escolha acerca de como esse mundo X foi decretado. Portanto, eu não tenho escolha quanto ao pecado decorrente desse mundo X que Que foi decretado por Deus.


Análise: Aqui é importante esclarecer o que se entende por “mundos possíveis”. Um mundo possível não é um lugar físico ou um universo paralelo, mas uma descrição máxima da realidade. Trata-se de uma descrição completa e exaustiva de como a realidade poderia ser. Justamente por ser máxima, essa descrição inclui todos os fatos acerca desse mundo, abrangendo cada evento, estado de coisas e relação existente nele.


O Stephen P. Schwartz explica isso de forma bastante clara: “Note-se bem que um mundo possível não é um planeta distante, nem próximo. Ele não faz parte do nosso universo. Um mundo possível é uma maneira total como as coisas poderiam ter sido. Um mundo possível inclui a totalidade do tempo e do espaço. O mundo atual, desde o início do tempo até o fim, e todo o universo atual, são um mundo possível — o atual” (Uma breve história da filosofia analítica, p. 209).


Em outras palavras, mundos possíveis são descrições completas de estados de coisas possíveis. Nesse sentido, quando afirmo que, no conhecimento natural, Deus conhece todos os mundos possíveis, quero dizer que Ele conhece todas essas descrições maximamente completas da realidade.


Uma vez compreendida essa noção de mundo possível, podemos avançar para o ponto central. Nos mundos possíveis em que existem agentes dotados de livre-arbítrio, há também fatos acerca de suas ações. Por exemplo, há um mundo possível no qual eu rejeito um presente dado por Letícia, assim como há outro mundo possível no qual eu aceito esse presente. Esses são fatos pertencentes a esses respectivos mundos.


A pergunta relevante é: o que explica o fato de, em um mundo, eu aceitar, e em outro, rejeitar? A resposta é: eu mesmo. São as minhas próprias escolhas livres que diferenciam esses mundos. Além disso, considerando que esta é uma das questões mais importantes relativas ao molinismo — conhecida como objeção de base (ou objeção da fundamentação) — não me alongarei aqui; limitarei-me a citar um trecho em que William Lane Craig aborda o problema:

Os detratores do conhecimento médio tipicamente levantam a afirmação de que, se os contrafactuais possuem algum valor de verdade, eles são uniformemente falsos por não existir base para sua verdade. Os defensores da objeção de base jamais articularam claramente ou defenderam a teoria da verdade proposta de maneira tácita pela objeção. Parece presumir alguma versão do que é chamado teoria da veritação, de acordo com a qual proposições verdadeiras são efetivadas por certas entidades do mundo. Contudo, a teoria do criador da verdade é uma posição controversa e mesmo seus oponentes comumente rejeitam o maximalismo da veritação, a doutrina de que todos os tipos de proposições verdadeiras possuem veritadores. Nenhum defensor da objeção de base respondeu à réplica mordaz de Plantinga: "Parece-me mais claro que alguns contrafactuais de liberdade são pelo menos possivelmente verdadeiros que aceitar ser essa a maneira na qual a verdade das proposições deve ser fundamentada". Além do mais, estão disponíveis veritadores para os contrafactuais de liberdade das criaturas. Alfred Freddoso sugere, por exemplo, que os contrafactuais de liberdade das criaturas são baseados no fato de que uma proposição indicativa relevante seria a base de sua verdade. Assim, o veritador do contrafactual Se Pedro estivesse em C, ele negaria a Cristo três vezes é o fato ou o estado de coisas de que a proposição "Pedro nega Cristo três vezes" teria um veritador sob condições relevantes. (Craig e Moreland. Filosofia e Cosmovisão cristã, p. 812)

É importante notar que essas descrições de mundos possíveis existem apenas em um sentido fraco: não são entidades que existem “por aí”; também não são objetos criados por Deus no sentido forte. Antes, podem ser compreendidas como construtos mentais, no caso de Deus, presentes em seu intelecto de maneira perfeita e ilimitada, enquanto nós os concebemos de forma limitada.


Dessa forma, ao criar um mundo, Deus leva em consideração as ações livres dos agentes que nele existiriam. Aqui chegamos a um ponto crucial. Você afirmou: “Se Deus decreta um mundo X, então eu claramente não tenho escolha acerca de como esse mundo X foi decretado.” No entanto, é preciso analisar com mais cuidado o que torna esse mundo o que ele é, especialmente no que diz respeito às ações livres.


O que faz com que um mundo seja este mundo, no que se refere às ações humanas, são precisamente as ações que os agentes realizam nele. Ou seja, o mundo é como é porque, de fato, nele nós escolhemos agir desta ou daquela maneira. Portanto, é em virtude desses fatos — que incluem ações livres — que Deus decreta a atualização de um determinado mundo possível.


Em seguida, você afirma: “Portanto, eu não tenho escolha quanto ao pecado decorrente desse mundo X que foi decretado por Deus.” Contudo, à luz do que foi exposto, essa conclusão não se segue. O pecado, nesse mundo, é resultado da sua própria ação livre, pois esse mundo possível é justamente a descrição maximamente completa na qual você realiza tal ação.


A diferença é que, entre os diversos mundos possíveis, Deus escolhe atualizar um deles — isto é, torná-lo o mundo atual. Os fatos nestes mundos não são essenciais, poderiam ter sido diferentes.


Terceira questão


Você: Lembro que você falou sobre o mundo ser a causa secundária do meu pecado e que eu, ao agir livremente, seria a causa primária. Mas ainda assim me parece muito estranha essa ideia de eu não ter escolha sobre o mundo que Deus criou e ainda sim ser culpado do pecado.


Análise: Aqui há uma confusão entre Calvinismo e Molinismo. Os calvinistas sustentam que Deus governa o mundo por meio de causas secundárias. Para ilustrar, considere uma fileira de dez dominós: se eu desejo derrubar o último (o resultado final), derrubo o primeiro, que por sua vez derruba o segundo, e assim sucessivamente, até que o décimo caia. Nesse caso, eu sou a causa primária de todo o processo, enquanto os dominós intermediários funcionam como causas secundárias, instrumentais, que conduzem inevitavelmente ao resultado final.

Segundo essa concepção, toda a realidade funcionaria de modo análogo: Deus determina os eventos ao operar por meio de cadeias causais. No entanto, essa não é a posição molinista. Os molinistas defendem que agentes livres são, propriamente, a causa de suas ações livres. Não há, nesse domínio, determinação por causas secundárias que imponham a ação. Afinal, retomando a analogia, como poderia o décimo dominó ser a causa de sua própria queda, se esta foi inteiramente causada pelo nono?


Quanto à questão de não termos escolha sobre o mundo que Deus decreta, penso que isso já foi parcialmente respondido anteriormente. Ainda assim, é possível acrescentar um ponto importante a respeito da responsabilidade moral. Já foi mencionada a doutrina da concorrência no contexto calvinista. Mas como essa noção aparece no molinismo?


Os molinistas aceitam uma forma de concorrência divina conhecida como concorrência simultânea. Segundo Luis de Molina, Deus não age sobre a vontade para determiná-la a escolher entre alternativas; ao contrário, Ele age juntamente com a vontade criada na produção de seus efeitos. A diferença é significativa: Deus não move a vontade de João a escolher A ou não-A. Em vez disso, Ele coopera com a vontade de João conforme a escolha que João efetivamente realiza. Se João escolhe A, Deus concorre com essa escolha e produz o efeito correspondente.


Desse modo, João é plenamente livre: não é determinado por causas anteriores. Ele possui liberdade libertária. As circunstâncias em que age são compatíveis com essa liberdade. Contudo, Deus sabe como ele agiria livremente nessas condições. Assim, ao colocá-lo nelas, Deus sabe o que João escolherá e concorre com sua escolha livre para produzir o efeito correspondente.


No caso de decisões pecaminosas, Deus concorre com a escolha do agente para produzir o efeito da decisão pecaminosa; contudo, observe-se que Ele não move a vontade da pessoa para que realize essa escolha pecaminosa. Isso difere da posição calvinista, segundo a qual Deus determina a escolha da vontade. Aqui, Deus concorre na escolha ao produzir o efeito da ação pecaminosa, mas não age sobre a vontade da pessoa para fazê-la escolher desse modo. Portanto, Deus não é responsável pela pecaminosidade do ato, pois não moveu a vontade da criatura para praticá-lo. Consequentemente, no molinismo, Deus não é o autor do pecado.


Referências


CRAIG, William Lane. #157 Molinism vs. Calvinism. Reasonable Faith, 2010. Disponível em: https://www.reasonablefaith.org/writings/question-answer/molinism-vs.-calvinism. Acesso em: 20 fev. 2026.


CRAIG, William Lane. The doctrine of creation (part 14). Defenders Podcast. Disponível em: https://www.reasonablefaith.org/podcasts/defenders-podcast-series-1/s1-the-doctrine-of-creation/the-doctrine-of-creation-part-14. Acesso em: 21 mar. 2026a.


CRAIG, William Lane. The doctrine of creation (part 15). Defenders Podcast. Disponível em: https://www.reasonablefaith.org/podcasts/defenders-podcast-series-1/s1-the-doctrine-of-creation/the-doctrine-of-creation-part-15. Acesso em: 21 mar. 2026b.


CRAIG, William Lane. Middle knowledge, truth-makers, and the “grounding objection”. Faith and Philosophy: Journal of the Society of Christian Philosophers, v. 18, n. 3, p. 337–352, 2001.


CRAIG, William Lane. O único Deus sábio: a compatibilidade entre a presciência divina e a liberdade humana. Tradução de Walson Sales. Maceió: Editora Sal Cultural, 2016.


GEISLER, Norman L.. Eleitos, mas livres. São Paulo: Vida, 2025.


MORELAND, J. P; CRAIG, William Lane. Filosofia e cosmovisão cristã. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2021.


PLANTINGA, Alvin. Deus, a liberdade e o mal. Tradução de Desidério Murcho. São Paulo: Vida Nova, 2012.


SCHWARTZ, Stephen P.. Uma breve história da filosofia analítica: de Russell a Rawls. São Paulo: Edições Loyola, 2017.

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