O que é filosofia?
- Victor José

- 8 de out. de 2025
- 15 min de leitura
Atualizado: 9 de out. de 2025
A maioria das pessoas, certamente, não faz ideia do que seja filosofia; e, quando sabe algo, geralmente é muito pouco. Alguns, de modo estranho, pensam que ela seja uma disciplina voltada ao ateísmo; outros a reduzem a uma mistura de especulações místicas com psicologia. Nosso propósito, neste capítulo, é esclarecer o que é filosofia e teologia filosófica, mostrar a sua importância e demonstrar como as caracterizações do tipo mencionadas acima carecem de fundamento.
Ao longo de mais de dois mil anos, tem-se reconhecido a relevância da filosofia. No cristianismo, em particular, ela desempenhou um papel fundamental. Muitas das figuras mais proeminentes da história da Igreja também foram notáveis filósofos — ainda que alguns não tivessem formação filosófica formal. Entre eles, podemos mencionar: Agostinho de Hipona (354–430), Anselmo de Cantuária (1033–1109), Tomás de Aquino (1225–1274), Blaise Pascal (1623–1662), Jonathan Edwards (1703–1758), John Wesley (1703–1791), William Paley (1743–1805), G. K. Chesterton (1874–1936), C. S. Lewis (1898–1963), Francis Schaeffer (1912–1984), Alvin Plantinga (1932–), Richard Swinburne (1934–), William Lane Craig (1949–) e Timothy Keller (1950–2023).
C. S. Lewis, em seu livro O Peso da Glória, advertiu sobre o perigo de negligenciar a filosofia:
Ser ignorante e simples agora — não sendo capaz de enfrentar os inimigos em seu próprio campo — seria derrubar nossas armas e trair nossos irmãos não educados, que não têm, sob Deus, nenhuma defesa contra os ataques intelectuais dos pagãos a não ser nós. É necessário que haja boa filosofia, se não por outra razão, porque a filosofia ruim precisa de uma resposta.[1]
Infelizmente, parece que a Igreja fez exatamente o oposto do conselho de Lewis: deixamos de nos preocupar não apenas em salvar a alma, mas também em salvar a mente. Como afirmou Charles Malik, a mente, “em suas maiores e mais profundas faculdades, não tem recebido suficiente atenção”[2], e isso é tão desastroso que podemos afirmar, com ele, que “o anti-intelectualismo é o maior perigo que o cristianismo [...] enfrenta”[3].
Essa negligência, creio eu, deve-se à cultura imediatista em que vivemos. Para os indivíduos moldados por esse imediatismo, o único conhecimento que importa é aquele que oferece alguma utilidade prática e imediata. Soma-se a isso a crescente desvalorização da filosofia nos currículos de formação. Tal cenário é prejudicial para toda a sociedade e, em particular, para a Igreja cristã, pois a ausência de filosofia contribui para uma “intelectualidade rasa e uma falta de discernimento cultural no corpo de Cristo”[4].
Mas, afinal, o que exatamente é filosofia? Qual é a sua importância? Como ela se relaciona com outras áreas do saber? Qual o seu papel na formação da mente cristã e na compreensão da cultura em que vivemos? Essas e outras questões buscaremos responder a partir de agora.
1 O PROBLEMA DA DEFINIÇÃO
Quando começamos a estudar uma disciplina, é comum buscarmos uma definição da área em questão. No entanto, no caso da filosofia, não existe uma definição única e fechada que seja aceita por todos os filósofos. Felizmente, as coisas não funcionam exatamente assim. Uma definição não é necessária para que compreendamos algo; antes, precisamos primeiro conhecer as características daquilo que está sendo estudado. Em geral, não adquirimos conceitos a partir de definições, mas por meio de exemplos. Por exemplo, não aprendemos o que significam os conceitos de “mãe”, “verde” ou “maçã” porque alguém nos ofereceu uma definição deles; aprendemos porque vimos essas coisas e observamos como as pessoas usam tais palavras no cotidiano. A situação do principiante em filosofia é semelhante à do prisioneiro que sai da caverna, conforme descrito por Platão na República. Platão pergunta: “E quando mergulhado na luz, seus olhos invadidos pelos raios do sol, não ficaria incapacitado para ver uma só daquelas coisas que agora se diz ser reais?”. E, então, ele prossegue:
Suponho, então, que ele precisaria de um período de adaptação para poder ver coisas na parte superior. No começo veria sombras com máxima facilidade, depois imagens ou reflexos de pessoas e outras coisas na água, e posteriormente as próprias coisas, e, a partir disso, passaria a perscrutar as coisas celestes e o próprio céu, mais facilmente à noite, contemplando a luz das estrelas e a lua, do que de dia, contemplando o sol e a luz deste.[5]
Da mesma forma que o escravo precisa se adaptar à luz ao sair da caverna, o principiante também precisa se habituar à filosofia — precisa de um “período de adaptação”. A princípio, é natural que você não entenda muita coisa; porém, com o tempo, a filosofia vai se tornando mais clara e familiar.
Assim, toda experiencia que você tiver com a filosofia, será uma ampla explicação do que ela é. No entanto, isso não significa que definições não possam ser fornecidas. Na verdade, elas são bastante úteis e, a partir do que já sabemos, penso que podemos propor uma definição razoável de filosofia.
Assim sendo, vejamos um exemplo distintamente filosófico. Como bem observou Michael Huemer[6], trata-se de um caso que, justamente por ser de fácil compreensão, torna evidente que o problema em questão não é de outra natureza senão filosófica. Refiro-me ao famoso Paradoxo do Navio de Teseu.
Eis o exemplo:
Um homem chamado Teseu, herói grego, navegava em seu navio realizando grandes feitos. Com o passar do tempo, porém, o navio foi se desgastando. Sempre que uma tábua se danificava, era substituída por uma nova. Ao longo de um período considerável, todas as tábuas originais foram trocadas.
A questão que se impõe é: depois de todas as substituições, Teseu ainda possuía o mesmo navio ou um navio inteiramente novo? Para além desse problema, outra questão pode ser levantada: e se recolhêssemos as tábuas antigas e reconstruíssemos o navio original, esse seria o verdadeiro navio em que Teseu iniciou sua jornada heroica?
Como disse acima, é facilmente perceptível que não se trata de uma questão cientifica, que experimento poderia ser feito para solucionar essa questão? Também não o é histórica, teológica, artística nem nada do tipo. O problema é distintamente filosófico, especificamente, um problema de mereologia. Não irei aqui propor uma solução para o problema, mas ele serve para demonstrar a natureza das questões que os filósofos lidam.
1.1 As Duas Filosofias
Retornando à questão da definição da filosofia, é importante salientar que, ao buscarmos uma definição, estamos tentando determinar o que a filosofia foi, é e será. A primeira tentativa costuma partir da etimologia da palavra ou de uma definição de dicionário. O termo “filosofia” deriva dos vocábulos gregos philein (amar) e sophia (sabedoria), significando, portanto, “amor à sabedoria”.
Os filósofos da Grécia Antiga buscavam conhecimentos relativos à verdade, à beleza, à bondade, à natureza e à boa vida. Sócrates (469 a.C.–399 a.C.) afirmava que “a vida não examinada não é digna de ser vivida”.
No entanto, essa definição etimológica é bastante genérica, pois pessoas de diversos outros campos — que não a filosofia — também podem ser descritas como amantes da sabedoria, por isso e outros motivos, tal definição tem sido cada vez menos influente nos círculos acadêmicos atualmente.
Os filósofos concordam que a definição acima é inadequada, mas frequentemente discordam sobre qual é a adequada. Qual o problema? Os filósofos discordam no que diz respeito a filosofia se ocupar com a análise de conceitos ou algo mais. E, ao concordarem que é algo mais, discordam a respeito da natureza desse algo mais.[7]
Olhando para o estado atual da filosofia no mundo, podemos distinguir duas abordagens filosóficas distintas, que penso ser a raiz do problema: a filosofia analítica e a filosofia continental.
1.1.1 A Filosofia Analítica
A filosofia analítica, atualmente, é praticada sobretudo em países anglófonos(com Inglaterra e EUA) e em departamentos acadêmicos de maior prestígio. Entre seus principais representantes, podemos citar: Bertrand Russell (1872–1970), G. E. Moore (1873–1958), Moritz Schlick (1882–1936), Ludwig Wittgenstein (1889–1951), Rudolf Carnap (1891–1970), Karl Popper (1902–1994), A. J. Ayer (1910–1989), Michael Dummett (1925–2011), Alvin Plantinga (1932–), Thomas Nagel (1937–) e Saul Kripke (1940–2022).
Os chamados filósofos analíticos entendem a tarefa filosófica como sendo a análise da linguagem, isto é, a explicação dos significados das palavras ou a análise de conceitos. No início da filosofia analítica, chegou-se a sustentar a ideia — hoje considerada excessiva — de que essa seria a única função da filosofia.
No entanto, é evidente que, ao longo da história da filosofia, os filósofos sempre se ocuparam com o significado das palavras e a análise de conceitos, ou seja, com questões semânticas. Platão, por exemplo, em seus escritos, realiza esse tipo de investigação ao perguntar qual seria a definição de termos como “bom”, “conhecimento”, “justiça”, “virtude” etc. De maneira semelhante, pensadores medievais como Anselmo de Cantuária e Tomás de Aquino podem ser considerados analíticos par excellence.
Desde o início da filosofia analítica, ela passou por algumas mudanças e já não se restringe à abordagem que predominava em seus primórdios. Hoje, a filosofia analítica se caracteriza principalmente por seu estilo: expressar com clareza o que se quer dizer, apresentar argumentos lógicos em defesa de suas teses e responder de forma lógica às objeções levantadas contra elas.
Embora exista o estilo continental (que veremos adiante), a filosofia analítica me parece superior e aparenta possuir, em sua essência, algumas virtudes filosóficas importantes que a filosofia continental não apresenta. Seguirei Michael Huemer na justificação dessa tese[8].
1.1.1.1 O estilo analítico
Aqui estão algumas características da filosofia analítica que a torna superior: (1) teses claras, (2) argumentos precisos e lógicos, e (3) respostas diretas às objeções.
O trabalho filosófico é essencialmente cognitivo, ou seja, busca aprimorar o conhecimento. Para atingir esse propósito, é necessário compreender com precisão o que o filósofo afirma. Caso alguém se preocupe apenas em confundir, impressionar com vocabulário rebuscado e estruturas frasais complexas, ou induzir as pessoas a não questioná-lo ou a se calarem, o objetivo da filosofia não será alcançado, por essa razão, a clareza é uma virtude filosófica.
Plantinga percebeu esse defeito e ironizou corretamente esse tipo de filósofo:
Se você quer ser um filósofo grande de verdade, preocupe-se em não dizer com muita clareza o que tem em mente (talvez isso não seja o bastante, mas é um começo); se as pessoas puderem ler e entender de pronto o que você diz, não haverá necessidade de comentadores da sua obra, ninguém escreverá teses de doutorado sobre ela a fim de explicar seu pensamento, e não haverá controvérsias sobre o que você quis dizer de fato.[9]
Ademais, além da clareza, para que o propósito cognitivo da filosofia seja plenamente atingido, é necessário apresentar argumentos sólidos em defesa do que se afirma. Também é fundamental compreender o que há de errado nas objeções apresentadas pelos oponentes. É bastante comum que a tese defendida seja algo com o qual pessoas inteligentes provavelmente discordariam.
Por outro lado, se alguém adota uma ideia apenas por sua capacidade retórica, ou porque conseguiu confundir os outros a ponto de impedirem qualquer objeção, então o propósito cognitivo não foi alcançado: nenhum conhecimento ou compreensão real sobre o assunto foi adquirido. Essas questões me parecem evidentemente verdadeiras, mas há quem discorde e prefira o estilo continental.
1.1.2 A Filosofia Continental
A filosofia continental, vem, sobretudo de países da Europa continental(como França e Alemanha). Entre seus principais representantes, podemos citar: Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770–1831), Karl Marx (1818–1883), Friedrich Nietzsche (1844–1900), Edmund Husserl (1859–1938), Martin Heidegger (1889–1976), Hans-Georg Gadamer (1900–2002), Jean-Paul Sartre (1905–1980), Michel Foucault (1926–1984) e Jacques Derrida (1930–2004).
Se você fizer uma pesquisa rápida na internet, perceberá que a filosofia continental é, em grande medida, concebida como oposta à filosofia analítica. Um artigo da Wikipedia afirma que o termo “filosofia continental” é “utilizado para denominar a filosofia não-analítica”[10]. De fato, essa caracterização é aproximadamente correta. Os autores continentais costumam ser menos claros que os analíticos: não definem seus termos com precisão, recorrem a metáforas sem explicação literal, utilizam jargões idiossincráticos, nem sempre apresentam argumentos explícitos para suas ideias, entre outros recursos que dificultam a compreensão.
Essas características tornam difícil analisar os “raciocínios” em etapas, identificando premissas e conclusões, o que, por sua vez, dificulta desenvolver objeções ou avaliar alternativas. Frequentemente, os autores apresentam ideias de forma confusa, conduzindo a algo que supostamente seria um raciocínio. Além disso, os filósofos continentais tendem a defender formas de subjetivismo ou irracionalismo, afirmando, por exemplo, que a realidade depende da mente, que não podemos ou não é desejável pensar objetivamente, ou que não podemos ou não é desejável pensar racionalmente. Como exemplo dessa postura, podemos considerar a posição dos chamados construtivistas sociais. Paul Boghossian, ao descrever as ideias desse movimento, afirma que, para eles:
[...] a verdade de uma crença não é uma questão de como as coisas ficam numa "realidade que existe independentemente"; e sua racionalidade não é uma questão de sua aprovação por "procedimentos transcendentes de avaliação racional". Ao contrário, dizer se uma crença é conhecimento depende necessariamente, ao menos em parte, do ambiente social e material contingente em que tal crença é produzida (ou mantida). Chamarei de concepção de conhecimento socialmente dependente qualquer concepção de conhecimento que incorpore essa convicção central.[11]
Essa posição, a meu ver, é contraintuitiva para qualquer pessoa que a examine com atenção. Afirmar que não devemos ser racionais é, em certo sentido, autocontraditório. Assim, a posição de que devemos ser racionais é praticamente tautológica: se há razões para não sermos racionais, então não ser racional torna-se, paradoxalmente, a atitude racional a adotar.
Dessa forma, considero que muitos autores continentais — especialmente os pós-modernos — querem que as pessoas tenham crenças falsas, e acabam promovendo deliberadamente a confusão conceitual como um meio de tornar isso possível. A obscuridade, nesse contexto, parece servir como instrumento para impedir o exame crítico de suas ideias. Acredito que, em algum nível, eles próprios reconhecem, ainda que implicitamente, a falsidade de suas posições, recaindo, portanto, em uma forma de autoengano.
Com efeito, quem busca manter crenças falsas inevitavelmente tende a evitar a racionalidade, mesmo que de modo inconsciente. Por isso, sempre que alguém ataca a razão, rejeita a objetividade ou evita formular suas ideias com clareza, considero isso um forte indício de que a maior parte do que essa pessoa defende está equivocada.
À luz de tudo o que foi exposto, talvez eu não esteja totalmente errado caso afirme que grande parte da filosofia continental não é propriamente filosofia. Ainda assim, para encerrar esta seção em um tom conciliador, reconheço que há exceções notáveis — e uma delas é Søren Kierkegaard (1813–1855)[12].
2. A ESTRUTURA DA FILOSOFIA
Até agora, vimos que não precisamos necessariamente definir o que é filosofia — embora seja possível, e seja justamente isso que estamos buscando aqui —, assim como exploramos brevemente a origem do problema e as virtudes da divisão entre filosofia continental e analítica. No entanto, ainda não dispomos de elementos suficientes para fornecer uma definição adequada de filosofia. Precisamos, portanto, examinar agora como a filosofia se organiza em suas diversas disciplinas.
2.1 As disciplinas de primeira ordem da filosofia
A maioria das disciplinas possui um objeto específico que define seu campo de estudo, mas o mesmo não ocorre com a filosofia, que é bastante abrangente. Assim, podemos elencar algumas de suas disciplinas de primeira ordem:
Lógica: investiga os princípios do raciocínio correto e válido. Por exemplo: quando e como uma conclusão pode ser extraída de forma válida a partir de premissas?
Epistemologia: investiga a natureza do conhecimento e da crença racional. Por exemplo: o que é o conhecimento? Podemos confiar nos sentidos? Que tipo de coisas podemos conhecer?
Metafísica: investiga a natureza da realidade. Por exemplo: o que significa a existência de algo? O que é uma substância? Existem universais? A causalidade é real?
Teoria do valor: investiga o valor ético e estético. Por exemplo: o que significa dizer que algo é certo ou errado, belo ou feio? Existe moralidade objetiva?
Essas disciplinas de primeira ordem da filosofia, ao se combinarem, dão origem às chamadas disciplinas de segunda ordem, que constituem novas áreas de investigação filosófica.
2.2 As disciplinas de segunda ordem da filosofia
Em muitas ocasiões, a filosofia atua como uma disciplina de segunda ordem. Ou seja, ela se debruça sobre uma disciplina de primeira ordem, como, por exemplo, a biologia, buscando responder questões como: “O que é um ser vivo?”.
Como todas as disciplinas precisam, em algum momento, responder a perguntas do tipo “o que se deve — e o que não se deve — acreditar nessa área, e por quê?”, surgem inúmeras disciplinas filosóficas de segunda ordem: filosofia da matemática, do direito, da educação, da ciência, da mente, da política, da história, da física, entre outras.
Para analisarmos mais de perto algumas delas, vejamos três exemplos:
Filosofia da mente: investiga a natureza da mente e da consciência. Por exemplo: a mente é o mesmo que o cérebro? O que é a intencionalidade?
Filosofia da Ciência: investiga o funcionamento, os fundamentos e o produto da atividade científica. Por exemplo: o que é ciência? As teorias científicas são aproximadamente verdadeiras ou meramente instrumentais? Devemos preferir teorias mais simples ou mais complexas?
Filosofia da religião: realiza uma investigação teórica sobre os problemas que surgem a partir das afirmações de verdade das religiões. Por exemplo: Deus existe? O conceito cristão de Deus é coerente? Como alguém pode justificar ou avaliar racionalmente uma crença religiosa?
Essas disciplinas deixam claro que grande parte da atividade filosófica opera no nível dos pressupostos, sendo a própria filosofia uma disciplina que não possui pressupostos inquestionáveis. Além disso, ela é, em certo sentido, autorreferente: os filósofos produzem obras nas quais refletem sobre a própria natureza e os métodos da filosofia.
2.3 Características e princípios da investigação filosófica
Acredito que, até aqui, já vimos o suficiente sobre as principais características da filosofia e estamos próximos de alcançar uma definição. Para isso, porém, precisamos, por fim, compreender algumas características e princípios da investigação filosófica. Entendo que Norman Geisler e Paul Feinberg,[13] bem como J. P. Moreland e William Lane Craig[14], apresentaram descrições complementares dessas características. São elas:
A investigação filosófica pode revelar que uma questão inicialmente considerada parte de outra disciplina é, na verdade, um problema filosófico. Estudiosos de diversas áreas frequentemente fazem reflexões filosóficas de forma espontânea, sem perceber. Como vimos anteriormente, eles podem se perguntar: “o que se deve — e o que não se deve — acreditar nesta área, e por quê?”. Da mesma forma, um biólogo pode indagar: “o que é um ser vivo?”. Questões como essas são exemplos de discussões filosóficas de segunda ordem sobre determinada disciplina.
As discussões filosóficas não são motivadas pela falta de informações factuais, e raramente os problemas filosóficos são resolvidos por meio de um simples apelo aos fatos. Para ilustrar, considere a controvérsia entre as teorias A e B do tempo — o presentismo e o eternalismo — na filosofia do tempo. Os filósofos que defendem essas teorias não podem decidir qual delas é verdadeira apenas recorrendo, por exemplo, à teoria da relatividade, pois esta apenas subdetermina (ou seja, não decide plenamente) qual concepção filosófica do tempo é a correta.
A filosofia abarca outras disciplinas em um nível fundamental, promovendo clareza e justificativa para as pressuposições essenciais de uma área, ou oferecendo argumentos contra esses pressupostos. Como a filosofia também atua no nível dos pressupostos enquanto disciplina de segunda ordem, ela examina os fundamentos axiológicos, epistemológicos, lógicos e metafísicos das demais áreas do conhecimento.
Um dos objetivos principais da filosofia é a elucidação. Como vimos, uma marca distintiva da boa filosofia é a clareza conceitual, e uma característica típica dos filósofos analíticos é demonstrar que certos enigmas surgem de enunciados obscuros ou de interpretações equivocadas. Nessa perspectiva, muitos problemas filosóficos podem ser desfeitos em vez de resolvidos.
A filosofia estabelece problemas conceituais externos para outras disciplinas ao considerá-las parte da avaliação racional de suas teorias. Um problema conceitual externo ocorre quando uma teoria de uma disciplina não filosófica entra em conflito com uma teoria filosófica. Por exemplo, considere os argumentos que sustentam “a impossibilidade de um infinito atual” ou “a impossibilidade da formação de um infinito atual”[15]. Se esses argumentos forem sólidos, então teorias científicas que postulam um universo eterno, cíclico ou similar seriam metafisicamente impossíveis[16].
2.4 A definição de filosofia
Penso que agora dispomos de informações suficientes para definir a filosofia e, ao fazê-lo, percebemos que a definição não estava tão distante do que imaginávamos. Se alguém nos perguntasse “o que é filosofia?”, poderíamos responder prontamente “A filosofia é a análise crítica dos conceitos fundamentais da investigação humana, a discussão normativa sobre como o pensamento e a ação humanos devem operar, bem como a reflexão sobre a natureza da realidade.”
Essa concepção da filosofia está implícita nas investigações dos grandes filósofos. David Hume resumiu bem essa posição ao perguntar:
Onde estou, o que sou? De que causas derivo minha existência, e a que condição retornarei? De quem o favor deverei cortejar, a ira de quem devo temer? Que seres me cercam? Sobre quem exerço influência, e quem exerce influência sobre mim?[17]
NOTAS
[1] Lewis, 2017, p. x
[2] Malik, Charles. The other side of evangelism. Disponível em: <https://www.christianitytoday.com/1980/11/other-side-of-evangelism/>. Acesso em: 4 out. 2025.
[3] Ibid
[4] Moreland; Craig, 2021, p. 45.
[5] Platão, República, Livro VII, 516a-516b, p. 325
[6] Cf. Huemer, Michael. Knowledge, reality, and value: A mostly common sense guide to philosophy. [S.l.]: Independently Published, 2021.
[7] Geisler; Feinberg, 2016, p. 14.
[8] Cf. Huemer, Michael. Analytic vs. Continental philosophy. Disponível em: <https://fakenous.substack.com/p/analytic-vs-continental-philosophy>. Acesso em: 4 out. 2025a.
[9] Plantinga, 2016, p. x.
[10] Wikipedia Contributors. Filosofia continental. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Filosofia_continental&oldid=69874773>.
[11] Boghossian, 2012, p, 22.
[12] Neste momento, você talvez esteja pensando que minhas faculdades cognitivas não estão funcionando adequadamente: “como pode criticar o irracionalismo da filosofia continental e, ao mesmo tempo, apreciar Kierkegaard?”. Muito poderia ser dito a esse respeito, mas, em resumo, meu apreço por Kierkegaard se deve ao fato de que suas ideias são extremamente frutíferas para filósofos analíticos — especialmente para filósofos analíticos cristãos, e ainda mais para aqueles que se dedicam à ética. Para compreender melhor essa perspectiva, veja: Evans, C. Stephen. Kierkegaard’s Ethic of Love: Divine Commands and Moral Obligations. Londres: Oxford University Press, 2006.
[13] Cf. Geisler; Feinberg, 2016, p. 17-20.
[14] Cf. Moreland; Craig, 2021, p. 57-63.
[15] Cf. Craig, 2023, p.261-286.
[16] Os filósofos distinguem entre “possibilidade lógica estrita” e “possibilidade lógica ampla”. Algo é logicamente possível em sentido estrito se não envolve contradição. No entanto, algo pode ser estritamente logicamente possível sem ser capaz de existir na realidade. Por exemplo, não há contradição em afirmar: “Algo tem forma, mas não tama/nho”, “Um evento ocorre antes de si mesmo” ou “Algo surgiu sem causa”. Apesar de não contraditórias, essas afirmações são amplamente logicamente impossíveis. A possibilidade lógica ampla é, assim, geralmente identificada com a possibilidade metafísica, isto é, com o que pode efetivamente existir na realidade.
[17] Hume, 2009, p. 301.
REFERÊNCIAS
BOGHOSSIAN, Paul. Medo do conhecimento: contra o relativismo e o construtivismo. São Paulo: Senac, 2012.
CRAIG, William Lane. Tempo e eternidade: as relações entre Deus e o tempo. São Paulo: Vide Editorial, 2023.
CRAIG, William Lane. Systematic philosophical theology, volume 1: Prolegomena, on scripture, on faith. Hoboken, NJ, USA: Wiley-Blackwell, 2025.
EVANS, C. Stephen. Kierkegaard’s ethic of love: Divine commands and moral obligations. Londres, England: Oxford University Press, 2006.
GEISLER, Norman L.; FEINBERG, Paul D. Introdução à filosofia: uma perspectiva cristã. 3. ed. São Paulo: Vida Nova, 2016.
HUEMER, Michael. Analytic vs. Continental philosophy. Disponível em: <https://fakenous.substack.com/p/analytic-vs-continental-philosophy>. Acesso em: 4 out. 2025a.
HUEMER, Michael. The failings of analytic philosophy. Disponível em: <https://fakenous.substack.com/p/the-failings-of-analytic-philosophy>. Acesso em: 4 out. 2025b.
HUEMER, Michael. Knowledge, reality, and value: A mostly common sense guide to philosophy. [S.l.]: Independently Published, 2021.
HUME, David. Tratado da natureza humana. 2. ed. São Paulo: Editora UNESP, 2009.
LEWIS, C. S. O peso da glória. 1. ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017.
MALIK, Charles. The other side of evangelism. Disponível em: <https://www.christianitytoday.com/1980/11/other-side-of-evangelism/>. Acesso em: 4 out. 2025.
MORELAND, J. P.; CRAIG, William Lane. Filosofia e Cosmovisão Cristã. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 2021.
PLANTINGA, Alvin. Conhecimento e crença cristã. Brasília: Academia Monergista, 2016.
WIKIPEDIA CONTRIBUTORS. Filosofia continental. Disponível em: <https://pt.wikipedia.org/w/index.php?title=Filosofia_continental&oldid=69874773>.



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